Ela não gostava de estender conversa; não dava o telefone; não aceitou o meu; não disse o nome. Procurava se impor num olhar desafiante, mas não deixou de transparecer o desconforto da situação.
Perguntei como encontrá-la, se estava sempre ali. A resposta, tão vaga quanto as anteriores, não oferecia garantia nenhuma:
– Não tenho dia, nem hora certa – Era pegar ou largar!
Em pé, entre dois carros estacionados na Augusta, procurava passar um ar de eventualidade, de acaso: Amanhã não! Quem sabe não estaria trabalhando em outra coisa, noutra vida, noutro mundo – Sei lá.
Tentei uma piada diante o inusitado desgosto – Era eu um cliente que chegando a loja encontrava um vendedor totalmente decidido a não vender seu produto!
Mas veio de repente um pensamento: Por que, entre tantas, justo essa moça
chamou-me à atenção? Eu não tinha dinheiro para maiores abusos, não havia planejado coisa alguma para aquela noite e nem estava com nenhum desejo mais urgente – Por que gastei meu tempo com uma entrevista absolutamente sem objetivo? Sim, ela era atraente! Mas não muito mais que algumas que se dispunham em fila naquele quarteirão. E num insight, entendi. A verdade é que algo a diferenciava: seu prosaísmo.
Para o transeunte desatento, não parecia uma puta, não se travestia de exageros, era única e exclusivamente uma menina na calçada entre dois carros. Poderia estar esperando seus pais, seu namorado, ou procurando alguma coisa perdida na calçada, quem sabe? No entanto, estava se prostituído e, pelo que pude notar, desejando nunca ter estado naquele desconforto.
E era tão forte seu desejo, que acabou me convencendo por completo dessa certeza, desse inusitado estado de alma. Meus olhos tinham me enganado – Estive conversando com quem mesmo?…
Caminhando, fui embora e algo não me saia da cabeça. Olhei para trás uma ultima vez:
– É… Ela não estava lá – Apenas um corpo, triste e cansado, aguardava.
contos de antonio gomes